terça-feira

Diariamente

Quem sempre tenta fazer o melhor dos seus dias é ela

Enquanto ele se prende ao seu mundo

Que só se estende até a moldura do espelho

E no outro dia, não é feliz

Porque se esqueceu de plantar.

Ela trabalha, sua e sorri

Enquanto ele desperdiça tanto palavras quanto tempo

O tempo deles

E ela chuva.

Paciência, dias cada vez mais curtos...

Flor

Calor

Folhas

Cobertor

E ela arrebenta tudo num acesso de raiva

Depois, apaixonada, replanta...

E depois é sol

A luz bate no mundo dele todo dia de manhã

E reflete a verdade que dói enxergar

E ele coloca seus óculos escuros

E, pisando nela, sai para trabalhar sem se despedir.

E ela enchente, terremoto, relâmpago.

quarta-feira

No começo, o fim

No fim, o começo.

Não julgar à primeira vista é tão importante quanto ter sempre em mente a primeira impressão.

sexta-feira

Canal

Quando, olhando de fora, se percebe algo de errado

Este é um revelar, talvez atrasado,

De que o que há por dentro está impuro ou morto.

Assim é a fruta, sua casca e sua polpa

Assim é o mar, sua superfície e o fundo

Assim são os dentes, seus esmaltes e suas polpas

Assim é ele, seus olhos e seu íntimo.

quinta-feira

Calo

A chuva estrala na minha janela
Os carros escandalizam seus infinitos trajetos
O vento incomoda o calor do meu corpo
As luzes, o cheiro, o turbilhão lá fora.

Aqui dentro, tudo quieto
Não que silêncio seja o mesmo que paz

(...)

Minha janela fica de frente para um mundo de ruas e seus asfaltos, carros, máquinas, janelas, olhares, antenas, céus, ares
Tudo isso sabe que existo?

Ando secreta pelas ruas, não procuro olhares. Como se meu silêncio pudesse se manifestar na pele... numa existência encoberta aos olhos alheios.
Devido ao barulho, silêncios podem muitas vezes passar despercebidos
Não que o pânico não possa provocar o mais insondável silêncio.

terça-feira

Sartre

"(...) as modificações fisiológicas que correspondem à cólera não diferem senão pela intensidade das que correspondem à alegria (ritmo respiratório um pouco acelerado, ligeiro aumento de tônus muscular, crescimento das trocas bioquímicas, da tensão arterial, etc.): no entanto a cólera não é uma alegria mais intensa, é outra coisa, pelo menos na medida em que se oferece à consciência."

Quero

Queria correr todo o trecho
sem me dar conta
sem me sentir pronta
e nem sentir cansaço no desfecho

Queria sorrir assim
espalhando magia
escorrendo alegria
sem medo de mim

Queria aprender somente
com a sinceridade do desprevenido
com a firmeza do desinibido
com a audácia do insolente

Queria que o dia fosse
assoprar o quente
escovar o dente
depois de engolir o doce

Queria não sentir a parte oca
não entender a falta
não silenciar a flauta
desconhecer o amargo da boca

Quero tudo isso assim
sem me preocupar com o fato
de que viver é um contrato
rasgado no fim.

quarta-feira

Rubem Alves

"Por que rimos e choramos por aquilo que não existe, aquilo que é fantasia? A resposta é simples: choramos e rimos porque a alma é feita com o que não existe, coisa que só os artistas sabem. 'Somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos', afirmava Shakespeare. Com o que concorda Manoel de Barros, rude poeta do Pantanal: 'Tem mais presença em mim o que me falta'. E Miguel de Unamuno:
'Recorda, pois, ou sonha, alma minha
- a fantasia é tua substância eterna -
o que não foi
com tuas figurações faze-te forte,
que isso é viver, e o restante é morte'."